Janela – Parte 3

Bastava daquilo. O lugar era cada vez mais apertado e estranho. Surreal. O tempo parecia parado, e cada soluço aparentava quebrar a obscura perfeição daquela sala. Se continuasse lá, enlouqueceria. Teria que respirar e manter a calma. Era mais fácil perder o controle pensando no assunto. Levantei e olhei para os lados, sem saber o que estava procurando. Andando de um lado a outro, prestei atenção em meus passos. A minha necessidade de distração era insuportável. Ritmado, fazia toc, toc, toc… tum. Tum? Fechei os olhos, concentrando, e pisei no mesmo lugar. Tum. Ao ouvir o som novamente, abaixei e puz a orelha em cima do piso. Eu podia ver meu reflexo. Estava vermelha e meus olhos tinham um desespero interno ainda fresco. Respirei e bati no piso de novo. Tum, tum, tum. Era impossível não ouvir o eco, que me soou como a salvação. Pulei sobre o ponto oco do piso, várias e várias vezes. Nada aconteceu. Sentei para tentar pensar mais claramente. Arejando a cabeça, me libertei daqueles terríveis pensamentos sobre a sala e me senti bem. Observei que as formigas haviam voltado a entrar e sair da janela. Acompanhei com os olhos o caminho, para dentro e para fora da rachadura no chão. Andei até ela. Ao parar na frente da fenda, um brilho me cegou, e logo cessou. Cobri os olhos e depois voltei a olhar para a rachadura, que ia ficando mais estreita até acabar perto da parede. O brilho veio de dentro dela, logo percebi. Estendi minha mão lá e encontrei um pedaço de porcelana; provavelmente um prato antigo. Não podia ter sido o prato a me cegar. Ele mal refletia. Olhei novamente dentro da fenda e vi que havia algo mais. Me esforçando para chegar ao fundo, senti algo frio e retrai o braço. Não podia ver onde botava a mão; poderia ser perigoso. Pensando melhor, o que tinha a perder? Indo ainda mais fundo, trouxe agora à superfície uma colher de prata, trabalhada e em perfeitas condições. “Ótimo” – pensei – “agora posso servir a sopa…”.

~ por Ariane Neuhaus em Março 16, 2009.

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